#12 Dorival
Nenhuma fachada da Vila dizia exatamente a verdade à primeira vista..
< Anos atrás - Vila Cidreira >
-Aqui, Sr. Dorival. Está bom para o Sr?
diz Mauro estendendo as mãos para que Dorival possa entrar em sua casa na Vila. A pergunta causa estranhamento para Dorival, já que cresceu mudando de ponte em ponte para se proteger da chuva e do vento.
-Bom? melhor que isso só isso mesmo.
-Pensei que o Sr diria que “melhor que isso só dois disso” Mauro ri.
-Jamais. Eu não daria conta de varrer duas casas, uma está de bom tamanho. Agradeço pela oportunidade de acompanhar o crescimento desse local, Sr. Mauro.
-Eu quem agradeço pelo início imediato! Ainda temos poucos moradores, mas eles irão chegar.
-Que isso… elas já estão aqui. Posso ver essa Vila cheia de vida. A casa do Sr e de Dona Ana…
-Por enquanto é aquela ao fundo, dá para ver um pouco daqui.
-Certo. Pretendem mudar?
-Não está nos planos, mas tudo pode acontecer né..
-”Tudo pode acontecer, inclusive nada.” hehe
-Eu gosto disso, diz Mauro, ajeitando papéis com anotações dentro da sua carteira.
-Eu entendo. Nem sempre precisamos mudar de imóvel para desmobilizar algo dentro de nós.
-O Sr é porteiro e filósofo que isso…
-Desculpe, eu não sabia que não podia beber no trabalho..
Sr. Dorival pisca para Mauro que ri enquanto caminha em direção a rua. O novo porteiro pega sua vassoura, apoia as mãos e por um instante admira a paz que encontrou nesse lugar - e ele não estava falando da Vila.
< Atualmente - Casa de Dona Ana >
Dona Ana acende a boca do fogão. Usava sempre a primeira da esquerda pra direita, sem saber o porquê; Estava com um casaco verde oliva, sem saber o porquê; Espiava a rua pela fresta da cortina, sem saber o porquê.
Esse era o dia em que João iria terminar a pintura da fachada e, com uma xícara de café nas mãos, ela observava a nova fachada da própria casa como quem encara uma decisão impulsiva depois que ela já aconteceu.
Não havia dúvida, mas também (ainda) não existia paz. Apenas espaço para o estranhamento: cor Tomate seco.
Era curioso observar como uma cor podia soar tão indigesta depois de décadas convivendo com um único tom. A Vila inteira parecia silenciosa desde que essa mudança repentina aconteceu. Ou talvez o silêncio sempre tivesse existido e o verde apenas camuflasse tudo que não podia ser dito.
Angélica está sentada na bancada da cozinha observando Dona Ana separar folhas de manjericão com a calma de quem já aprendeu que algumas coisas precisam ser feitas devagar, inclusive algumas conversas.
-Dizem que toda casa envelhece parecendo cada vez mais com quem mora dentro dela…
-E isso é bom ou ruim?
-Acho que depende da coragem da pessoa de se… ver.
-Eu sabia que você ia responder uma coisa assim.
Ana sorri timidamente para Gé.
A cozinha ainda tinha o mesmo relógio atrasado em cinco minutos e o mesmo pano de prato florido pendurado na parede, Angélica conhecia cada detalhe daquela casa como quem tem uma oração decorada desde criança. Mas, ainda não sabia como fazer essa reza sozinha.
-Mãe?
Dona Ana volta o seu olhar para Gé.
-Você já quis ir embora daqui?
Ana ergue os olhos devagar enquanto termina de puxar a última folha de manjericão dos ramos. Não aparenta surpresa, apenas o cansaço de quem aguardou por muito tempo essa conversa com alguém e valoriza o esforço da filha para tocar nesse assunto.
-Olha… eu, já.
-E por que não foi?
-Porque às vezes o coração confunde ir embora com uma espécie de recomeço.
Gé passa lentamente os dedos da borda da xícara.
-E você? Já quis?
Gé dá de ombros.
-A verdade? Eu acho que passei a vida inteira tentando descobrir se existia algum lugar onde eu coubesse sem precisar pedir licença primeiro.
Ana abaixa os olhos para o manjericão nas mãos.
-E encontrou?
Gé pensa. Respira fundo. Não encontra a resposta dentro de si, mas as palavras saltam de sua boca
-Não sei… Eu encontro pessoas, o lugar ainda não.
Ana respira fundo.
Dessa vez, fundo o suficiente para tatear aquilo que deixava soterrado.
-Entendo… as vezes a gente se sente visita dentro da própria vida.
A frase atravessa Gé de um jeito estranho e familiar.
-Mãe! Um desabafo: eu sempre achei que a minha casa de tijolinho parecia deslocada daqui, sei lá.
Dona Ana para o que estava fazendo na cozinha para olhar nos olhos de Gé
-Não estava deslocada, filha.
-Parecia pra mim… enfim…
-Veja bem, Gé: a sua casa era a única que não escondia do que era feita.
Gé volta os olhos imediatamente para Dona Ana. Pela primeira vez em muitos anos, sente que a mãe não estava falando da casa.
Discretamente ela toca os dedos no rosto e se belisca suavemente: aquela conversa poderia facilmente ser um sonho.
< Algumas horas antes - casa de Tia Mariana >
-Tia, você tá bem?
Mariana limpa rapidamente o rosto escondendo as lágrimas como quem foi pega desprevenida pela própria emoção.
-Tô sim, querida… é que às vezes algumas coisas demoram pra voltar pro lugar que quando voltam… é estranho.
Tia Mariana entrega o porta-retrato cuidadosamente para Gé que, não entende o porquê aquele objeto despertaria algo sentimental na sua tia.
Com ele nas mãos, percebeu que o porta-retrato parecia menor do que ela lembrava. Ainda assim, carregava um peso antigo. Maurício permanece em silêncio ao lado dela.
-Eu troquei o vidro também, tá? diz Mariana. O antigo trincou inteiro.
-Eu jurava que nem tinha mais conserto, tia. Obrigada!
-Tem coisa que continua existindo mesmo quebrada, Gé.
Gé passa os dedos pela moldura.
Pela madeira. Observa as marcas do tempo.
-Você sempre gostou desse porta-retrato, né? Lembro de você com ele no antiquário quando era pequena, diz Maurício.
Ela sorri.
-Sempre achei ele meio triste, na real.
-Triste?
-É… bonito, mas triste. Como se tivesse sido feito pra manter algo intacto sabe? e… sei lá. Acredito que a única certeza é a mudança.
Maurício sente o peito apertar.
Mariana percebe o silêncio crescendo entre os dois e decide ocupar o espaço antes que sejam engolidos.
-Maurício me ajudou a limpar ele.
-Ah é?
-Fiquei com medo de quebrar mais ainda sozinho, né? diz ele tentando trazer leveza para a conversa.
Gé ri baixinho olhando para baixo. Não sabe descrever como se sente confortável com sua existência diante dos dois. É como se todo o véu que usava para se vestir de outra coisa diante de algumas pessoas, com eles, pudesse cair por terra. Ali, só existia espaço para ela e, à medida que se emociona, vira o porta-retrato distraidamente entre as mãos.
E para.
Tem algo atrás da madeira.
-Que isso?
Mariana prende a respiração.
Os dedos de Gé puxam cuidadosamente o papel envelhecido escondido atrás da moldura. O coração de Maurício falha no mesmo instante em que reconhece o jornal antigo dobrado ali dentro.
Antes mesmo que Gé consiga abrir completamente, um recorte cai sobre a mesa.
Um pedaço de jornal antigo, uma frase escrita à mão:
“Eu por você,
você por mim.”
Gé franze a testa. A frase que mais atormentou durante toda a vida. As palavras que eram juras de amor entre seus irmãos, por que estariam ali?
A caligrafia não parecia ser de Mauro, mas ela não tem certeza pois não cresceu tão próxima do pai, não se lembra da letra dele.
Ela olha primeiro para Tia Mariana. Olha para Maurício. Maurício não consegue fugir do olhar de quem procura respostas.
-Maurício…
A voz de Gé sai alta, mas trêmula. Como se a adulta tivesse se retirado dali e ficasse apenas o seu lado infantil em busca de algum possível acolhimento.
-Essa letra é do meu pai?
Ele fecha os olhos por um instante curto. Sente-se cansado demais de continuar escondendo.
-Gégé, querida... essa letra é minha.
O silêncio ocupa cada fresta daquele lugar. Mariana observa os dois sem interromper como quem entende que algumas verdades precisam atravessar uma sala inteira antes de encontrar pouso.
-Eu não tô entendendo…
-Nem eu entendi por muito tempo, Gegé.
Maurício sorri, mas é possível perceber a tristeza em seus olhos.
-Gé, podemos continuar a conversar na casa de Ana?
< Muitos anos atrás - Quando Maurício visitou Ana >
-Olha só pra você, parece que está nervoso…
Ana ri enquanto Maurício tenta acender o abajur sem sucesso.
-Eu esperei minha vida inteira pra isso, Ana. Literalmente. Me dá um desconto?
-Isso foi muito cafona
-E funcionou? Maurício responde enquanto sorri e a abraça
-Infelizmente sim.
Do lado de fora, a Vila Cidreira permanecia silenciosa. As casas verdes.
Os corredores estreitos. O mundo inteiro parecia pequeno demais para tudo o que sentiam.
Maurício observa os tijolos empilhados do lado de fora da janela enquanto se levanta vestindo sua calça.
-Você vai mesmo deixar essa fachada sem pintar?
-Vou mesmo!
-Mauro vai reclamar…
-Ele já reclamou e já foi viajar de novo
-E por que deixou assim então? Não pensei que você gostasse tanto de tijolos…
Ana demora alguns segundos antes de responder.
-Porque eu queria que pelo menos uma coisa aqui continuasse crua. Nua. Bruta. Aparente e verdadeira antes de tentarem cobrir.
Maurício a observa em silêncio tentando acompanhar todo o simbolismo daquilo para Ana. Aquela menina que ele viu crescer sempre tão carinhosa e decidida, hoje era uma mulher que cedeu muito para continuar existindo.
Naquela noite, ele aprende uma coisa nova sobre Ana:
Ela nunca teve medo de amar, teve medo de continuar topando desaparecer. Por isso, gentilmente abaixa-se, centraliza o rosto de Ana com o seu e fala evitando piscar:
-Ana, construa a vista que mais te agrada. São os seus olhos que vão olhar todos os dias para ela.
Maurício olha no relógio do seu pulso e percebe que precisava ir embora. Não queria ser visto pelas crianças e nem por ninguém da Vila dentro da casa de Ana. Acima de tudo, prezava pela reputação de Ana e em preservar a história que tinha com aquela família. Ana levanta-se para se arrumar, enquanto isso ele percebe um jornal na mesa lateral da cama. Nele, escreve em poucas palavras o que sequer imaginava que se tornaria a costura, a poesia concreta de toda aquela família.
Antes de partir daquele sonho, Maurício volta-se para Ana:
-Ana… você está feliz?
Parada ela percebe que há muitos anos não fizeram essa pergunta para ela.
-Acho que estou aprendendo como fazer isso.
< Atualmente - casa de Dona Ana >
-Mãe, eu…
Gé abre a porta sem pedir licença quando se depara com Marta e Maurinho sentados ali. Sua mãe ainda está selecionando os tomates mais maduros para o molho.
-Reunião de família? brinca Maurício
-Mãe, eu preciso falar com..
Antes que complete a frase, Ana vê os pedaços da sua história nas mãos de Gé e olha para Maurício. Procura as melhores palavras, mas nem todo o improviso do mundo seria capaz de ludibriar o que sente naquele momento. Esse seria o molho mais difícil de preparar, pois nunca encontrou o momento em que o seu coração estivesse maduro o suficiente para aquela conversa.
-Filha…
Ana limpa suas mãos no avental.
-Filhos…
Todos olham para Ana que agora está colocando tanto ar para fora que parece querer esvaziar de dentro de si mesma todo ar que segurou durante sua vida. Percebe que não há melhor maneira de fazer isso, não há melhor momento. Às vezes o melhor tempo para colher, não é quando um fruto amadurece. Mas, é livrar a terra para que outros possam ser plantados.
-Eu e o pai de vocês… tivemos uma história diferente da que vocês imaginam.
Os três posicionam-se para escutar atentamente. Dona Ana não era capaz de fazer grandes comunicados ou sermões. Na verdade, nunca falou por tanto tempo consecutivo. Engolia tantas palavras que, agora, depois de tanto, não sabia nem como conjugar os fatos.
-Vocês dois ainda eram pequenos quando eu e Mauro percebemos que não estávamos mais sendo um casal. É difícil perceber quando se tem filhos, sabe? a casa funciona, alguns sonhos são realizados, existe a alegria de ter vocês na rotina.. mas, não éramos mais um casal. Éramos pais, bons pais. E tínhamos muito carinho um pelo outro, isso nunca faltou.
Marta e Maurinho se abraçam, era como se uma peça que faltava no quebra-cabeça infantil que tentavam montar “acho que a mamãe está brava comigo”, “acho que o papai me odeia”, “por que será que eles conversam dessa forma?”, perguntas sem respostas que moraram dentro deles e, que, com o tempo, foram se tornando certezas internas. Certezas de que tudo era sobre eles naquela família: o ressentimento do que não era dito, a dúvida de um amor atravessado, a falta de realização da mãe para além do núcleo interno familiar. Mesmo com lágrimas nos olhos e muitas dúvidas, decidem não interromper D. Ana..
-Nós decidimos não ser mais um casal. E funcionamos bem dessa forma, isso é o que vocês viram durante toda a vida..
Ana chora. As lágrimas tímidas dão lugar para uma avalanche percorrendo seu rosto. Maurício lhe oferece um papel, ela segura sua mão.
-Está tudo bem, mãe. Nós amamos a família como você a formou. Amamos a história de vocês, até mesmo as páginas que nunca foram lidas…
diz Marta buscando ser compreensiva com aquele momento, mas não imagina como aquela frase esmaga o coração de Ana.
-Gé..
Ana limpa seus olhos.
-Essa letra é de Maurício.
Gé encara o porta retrato. Vê as linhas douradas que seu pai sempre amou. O vidro consertado pela sua tia. As manchas amareladas que sua mãe limpou infinitas vezes e nunca conseguiu remover. Olha pela janela de Ana e enxerga do outro lado os tijolos aparentes de sua casa. Lembra-se do que sua mãe disse naquela manhã sobre expor e não cobrir aquilo que somos. Sente as dores de Ana por criar uma família acima dos seus desejos, o medo de ir embora daquele sonho tão antigo e não ter um novo sonho para colocar no lugar. As dúvidas, certezas, incoerências. Aquela família também era tudo isso. Olha firme para os olhos de Maurício e se vê. Como sempre, todo silêncio sempre fez sentido, pelo carinho como ele contava sobre Mauro, o jeito corajoso de lidar com as suas descoragens da vida. Gé sentiu em seu peito o pertencimento que sempre procurou e percebe que ele ainda não sabe. Decide não esperar mais pelo momento certo de costurar a sua história e vai de encontro aos braços de Ana.
-Eu vejo você, mãe.
Eu demorei, mas hoje, eu vejo você.
Ana solta o peso do seu corpo nos braços de Gé.
-Não precisa nos contar tudo agora. Vamos... sei lá, um tomate por vez?
Ana sorri com tristeza suficiente para a filha perceber.
-Mãe…
você tá feliz?
Dona Ana sorri. Lembra-se de quando ouviu essa frase pela última vez e fazia muito tempo. Tanto tempo que deixou sua felicidade para um próximo nascer do sol e, assim, já não apreciava mais as estações do ano.
Pensa honestamente pela primeira vez em muitos anos.
-Acho que estou reaprendendo como fazer isso. Mas, dessa vez, não vou deixar ninguém encarregado disso.
Ana enxuga os olhos enquanto amarra o avental
-Vou voltar pro meu molho, tá? Esse macarrão não vai ficar pronto sozinho.
Gé deixa a casa sem saber exatamente porque aquela resposta a emocionou tanto.
Atravessa a vila devagar observando as fachadas alinhadas uma ao lado da outra. Verde claro. Verde queimado. Verde oliva. Verde musgo.
E então sua casa: Tijolinho aparente.
Quando criança, imaginava que um dia teria dinheiro suficiente para cobrir tudo aquilo que parecia incompleto. Queria uma fachada bonita como as outras. Queria pertencer sem precisar explicar. Hoje, gostava das imperfeições aparentes. Também por se ver cansada demais para esconder estrutura, mas por aceitar como a vida foi construindo a sua história.
-Acho que algumas partes da gente reconhecem a própria casa antes da cabeça conseguir entender.
< Vila Cidreira - fim de tarde >
Gé respira fundo buscando assimilar tudo. Atravessa lentamente o corredor de volta para casa de Dona Ana. Carrega consigo o porta-retrato apertado contra o peito. As fachadas verdes escolhidas por Mauro. A guarita do Sr. Dorival. Os gatos de Maurício.
Tudo no mesmo lugar, mas nada mais é igual. O Sr Dorival a observa e comenta, “você caminha igualzinho o Sr. Mauro quando estava contemplativo”
Ao ouvir o nome do pai, os olhos dela marejaram imediatamente.
-Ele…
Sr. Dorival inclina a cabeça. Não entende como ela sabe que ele sabe…
- Ele sabia, querida. Desde sempre.
Gé leva a mão até a boca sem perceber.
Até que então entende.
Entende o tijolinho.
Entende o olhar de Dona Ana.
Entende porquê Mauro nunca tentou pintar aquela fachada.
Entende porquê Maurício sempre olhou pra ela como quem reconhecia alguma coisa impossível de explicar, mesmo sem ele mesmo conseguir entender.
A casa nunca esteve inacabada. Só entregava a verdade antes de todos eles.
-E então?
-E então o quê Sr. Dorival?
-Achou o que estava procurando?
Gé sorri pela primeira vez sem tentar esconder o medo.
-Acho que descobri do que minha casa era feita.
Sr. Dorival concorda como quem já sabia. Ela para diante da fachada de tijolinho e observa cada detalhe.
As partes deformadas.
As marcas do tempo.
O que nunca foi coberto.
Pela primeira vez na vida, não sente vontade nenhuma de pintar aquilo de verde.
- No fim, estamos todos apenas tentando descobrir se ainda existe alguma casa possível dentro de nós… não é? Ah! E eu sempre te achei madura demais para ter uma casa verde, hã hã!? Tendeu?
Gé ri enquanto caminha em direção a casa de Ana.
< Alguns meses depois >
-Bem-vindos oficialmente à Vila Cidreira…
Aqui a gente entende que nunca é apenas uma casa. Mas, sobre continuar em paz apesar das nossas rachaduras. Uau, eu vou anotar essa!
A Vila seguia vivendo seus pequenos movimentos invisíveis:
Sr. Dorival recebe novos inquilinos que ficarão na casa de Gui e Ju. João e a esposa decidem adotar uma criança. Marta coloca sua xícara suja na pia e consegue ir em paz com isso para o trabalho. A janela da casa de Carla estava aberta e era possível ver Maurinho brincando com a filha. Maurinho decidiu morar em outro local e estava aliviado com a decisão. Ana compartilhou toda a verdade com Maurício sobre aquela noite, que ficou tão emocionado ao descobrir que a garota que teve como filha postiça a vida toda, na verdade, era realmente sangue do seu sangue. Os irmãos, por fim, fizeram as pazes com o passado e com os caminhos curvilíneos que a vida ofereceu a eles para viver.
E o verde…
O verde continuava por toda parte.
Menos na casa de Gé. Menos na casa de D. Ana.
Talvez mudanças demorassem para acontecer justamente porque, depois da primeira, as outras perderiam o medo de serem quem são.
Dona Ana espia a Vila pela cortina da sala. Veste um vestido azul marinho e prepara-se para começar o seu ritual para o almoço. Maurício entra pela porta da sala com uma sacola de tomates. Pela primeira vez ela sente que a Vila Cidreira estava sendo, não apenas existindo por um sonho antigo adormecido. Nem apenas porque as estruturas eram fortes, mas porque, de alguma forma, aquelas pessoas continuavam escolhendo permanecer.
-Não somos mais os mesmos, né Maurício?
Ele ri imaginando para onde a cabeça de Ana estaria viajando naquele momento..
-E nem deveríamos ser.. não é?
Na calçada, Joana caminha até o portão da Vila. Pelas frestas da porta consegue enxergar um pouco do interior do espaço. Sente a brisa mais leve, as vozes mais calmas, o aroma de tomate e manjericão invadindo cada partícula de ar. Respira fundo. Cerra os olhos e consegue ver ao fundo a Casa de D. Ana, não mais verde e nem metade de uma cor ou outra. Está toda avermelhada. Bem pintada, inteira. Sem manchas, sem dúvidas do que escolheu ser, reviver e viver.
Dever cumprido, amigo. Estão todos em boas mãos, ela pensa em voz alta.
-Bom trabalho, Jô.
diz Sr. Dorival saindo por trás da guarita com tom sarcástico.
Nenhuma fachada da Vila dizia exatamente a verdade à primeira vista.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, nenhuma delas parecia mentir. Eram quem era. Com suas verdades e mentiras inteiras. Eram partes. Eram tudo. Eram também seus vazios. Eram como eram e isso já não era mais um ofensa e nem uma sentença. Apenas era o que era. E isso tinha sua beleza.


