#10 - Casa02 : Joana
o presente com retrogosto de passado
< 5 anos atrás - hospital próximo a Vila >
-Emergência! saiam da frente, paciente em estado grave, licença! abram espaço, espaço, espaço!
-Senhora aguarde por aqui! Ele entrará na sala de cirurgia, qualquer novidade o médico ou uma enfermeira irá procurar a senhora!
Dona Ana está parada no corredor do hospital. Com o olhar fixo no chão percebe como o porcelanato está limpo, tão limpo que seria possível comer uma macarronada sem prato diretamente em um dos quadrados. Respira fundo. Sente o ar saindo, mas nunca entrando. Está a beira de um colapso e, por isso, busca dentro de si todas as artimanhas possíveis para disfarçar a sua angústia tão intensa.
Observa as cores na parede e não compreende a escolha do amarelo claro com o cinza - cor de creche, ela pensa. Por que todo hospital tem cadeiras tão desconfortáveis? Todo hospital é tão gelado? percebe que esqueceu o seu casaco. Direciona o seu olhar para baixo e percebe o reflexo da luz azulada sendo refletido - parece o chão da casa de Carla e Maurinho. Com o que será que ela limpa?
Ana ainda não se permitiu pensar que naquela noite, depois de 40 anos, poderia mudar o seu estado civil para sempre. Na verdade, isso já tinha acontecido há tempos. Mas, naquele dia, estaria realmente sozinha. Apesar do estágio do câncer avançado, Dona Ana abstrai qualquer chance de perder Mauro naquele dia… qualquer assunto seria mais importante do que lidar com a sua solidão - o tom verde claro ficaria muito melhor do que o amarelo, onde fica a caixa de sugestões desse hospital?
-Acompanhante de Sr. Mauro Cidreira, Mauro Cidreira!
-Aqui!
-Sra, boa noite. Sou Joana, a enfermeira que está acompanhando o seu marido essa noite. Ele provavelmente passará a noite aqui, a senhora precisa de algo?
-Não, não.
-Tem familiares que possam ajudá-la ou revezar a visita?
-Sim, tenho 3 filhos e amigos. Moro aqui por perto.
-Sr. Mauro está muito debilitado. Ele vem se tratando de um câncer pelo o que vi no histórico né e, por isso, devido a imunidade baixa somado ao risco de trombose e coágulos, ele teve um AVC. Foi até leve, porém ele precisa ficar em observação.
-Certo, entendi.
-Posso ajudá-la em mais alguma coisa?
-Sim… onde posso colocar sugestão de uma cor melhor para as paredes desse lugar? esse amarelo não tem cabimento.
a enfermeira não compreende onde Dona Ana quer chegar..
-Sra… você está bem?
-Sim! por isso, quero contribuir para melhorar esse local.
-Bom, existe uma urna logo adiante. A senhora pode escrever e colocar ali.Tudo bem?
-Grata! Joana, certo?
-Isso. Até logo!
Dona Ana respira fundo, não tão fundo, pois o ar que entra parece não circular em seus pulmões. Respira, porque precisa. Ajusta o seu pé dentro da sapatilha, coça a canela, inclina a cabeça e caminha em direção a porta principal do hospital.
Amarelo bebê! poderiam ao menos ter pesquisado a respeito, nem isso se dão ao trabalho.. como pode??
Pega o papel que está cortado em cima da mesa, aperta tanto a caneta a ponto de afundá-la:
-Verde Capim cidreira, façam isso pelos pacientes e acompanhantes de vocês.
O MÍNIMO!!!
Sentou-se com o alívio de quem conseguiu resolver tudo que precisava. Ou melhor, do que estava ao seu alcance. Depois de anos junto a quem amava porém não gostava mais, sentia que esse era o mínimo que poderia fazer: o legado que sempre sustentou embora não acreditasse.
-Mãe! Mãe! Cheguei! Como papai está?
Marta senta-se ao lado da sua mãe que está paralisada olhando fixamente para a meia parede. Joana observa as duas tentando entender - por que ela se importaria com isso agora?
< Anos atrás - na noite em que Maurício visita Ana >
-Já faz mais de 1 ano que não somos mais um casal, Maurício.
As palavras de Ana atropelaram Maurício.
Como se tudo que ele quisesse escutar e tudo que ele não quisesse ouvir fosse dito em uma única frase. Todos os seus sonhos mais profundos estivessem diante de seus olhos. Todos os seus pesadelos aconteceram de uma única vez: era apaixonado pela mulher de seu melhor amigo. Era apaixonado pela história que vivera ao lado de seu amigo de infância, pela construção dos sonhos dele e por toda sua trajetória que o guiou até aqui. Mas, seria esse o momento de olhar para os seus desejos? Como reconhecer o momento certo de autorizar aquilo que sempre quis e nunca conseguiu admitir em voz alta? Maurício se vê paralizado em frente a Ana e, atrás dela, consegue ver o seu reflexo por um dos vidros da janela. Está desnorteado, como se tivesse acabado de levar um soco na cara e tenta a todo pano reencontrar o equilíbrio perdido. Segura nas mãos um presente que simbolizava um ponto final singelo e bonito, mas que agora, poderia ser uma reticências - a pontuação mais difícil de se utilizar na língua portuguesa.
Maurício sempre soube que nunca foi bom em pontuar aquilo que sente. Ele que toda vez tem um bom conselho para oferecer, naquele dia se vê analfabeto diante do amor e do que sente. Percebe o inevitável: entre aquilo que se sente e o que pode ser feito, acontece um hiato onde precisa florescer a coragem ou curiosidade humana. Maurício não se vê sendo corajoso o suficiente para admitir e nem curioso o suficiente para investigar o que aconteceria depois de assumir o que sente. Nesse momento juntos, dão luz a um novo hiato: há silêncio, apenas o que separa e se coloca entre os dois.
Por um instante, lembra-se das palavras de seu pai: Filho, da próxima vez, peça para que o alface brote. Os tomates têm praga demais, são muito difíceis de darem certo. Se a vida não ouvir o que você pede, fale! Mude o pedido. Não desista da vida.
Nocauteado, só é possível escutar o som da respiração. Ana respira fundo e continua…
-Nós não estávamos nos entendendo muito bem, mas Mau nunca foi bom com as palavras. Logo, existiu apenas um grande vazio, um cemitério de palavras sentidas e ressentidas entre nós. Sem ter um plano em mente, concordei em nos mantermos juntos pelas crianças, eles três são o que mais importa pra mim. Mau optou por viajar e seguir o seu caminho… ás vezes penso que estamos adiando o ponto final. Ás vezes, penso que escolhemos viver a versão trágica do nosso amor.
-São dois, Ana.
Ana ri pela confusa confissão que acaba de fazer
-Eu sei.. mas eu quero ter 3 filhos, tenho espaço para mais um em meu coração.
Ana discretamente enxuga uma lágrima timidamente nova que acaba de rolar pelo seu rosto.
-Sinto muito, Ana. Tenho imenso carinho pela história de vocês…
As palavras de Maurício são sinceras. Por trás de tudo que pode ser dito, seu segredo ainda insiste em pulsar. Antes, era como um coração congelado, intacto e adormecido. Hoje já é possível ouvir uma espécie de som, uma batida tímida mas insistente..
Tum…
- o que foi esse som? Ana pergunta um pouco preocupada
- Ana, acho que foi na janela… um dos lados está aberto. Isso ou…
Maurício respira fundo, como quem não consegue mais se engasgar com o grito que esteve sempre pronto na sua garganta. Ouve a voz de seu pai mais uma vez “fale! Mude o pedido. Não desista da vida.”
- … ou sou eu.
- Como assim, Maurício?
- Ana… eu sempre te amei.
Há vida entre a troca de olhares que circula pelo quarto. Maurício percebe um sorriso em Ana. Dentro de si deseja devorar cada parte daquela felicidade improvável.
- Eu sei… Tem amores que foram escolhidos para serem vividos. Já outros para…
Ana caminha em direção a Maurício e posiciona o indicador no centro dos seus lábios, interrompendo suas palavras. Não quer ouvir o que vem depois, não quer pensar no que virá a acontecer, não quer saber o que já foi feito. Quer viver aquele minuto. O minuto em que o amor entre eles pôde existir por completo. Livre de julgamentos, do tempo, da linha cronológica exata, das escolhas que já foram tomadas. Quer desligar os seus pensamentos por um segundo, amar Maurício e aceitar que esse instante será o suficiente.
Ana,
quer
poder
escolher.
E isso para uma mulher que aceitou as escolhas que a vida foram apresentando e acontecendo, que foi escolhida, que passou por cima dos seus quereres, era como um manifesto de que, ela ainda era um longo caminho. Ainda tinha chão. Ainda era tempo. Ainda existia amor para ela se ela fosse corajosa o suficiente para se amar daquela forma.
Mesmo se sentindo um pouco atrasada, o amor chegou em tempo.
Maurício sente o sabor da pele de Ana tocando seus lábios. Apesar de salgado era como saborear a última mordida de uma boa sobremesa. Ana desloca sua mão ao encontro da dele, mãos que se entrelaçam naturalmente como se o encaixe fosse calculado milimetricamente. Será que era tão bem calculado por nunca ter acontecido? Será que foi assim que me senti na primeira vez em que vi tão perto meu ex-marido? Não se lembrava. Contava a história, mas já há tempos não sentia nada ao pronunciar as palavras. Será que o tempo se encarregou de criar rupturas e desencaixes entre as minhas mãos e de Mau? A realidade tinha um sabor indescritível e, justamente por isso, era difícil racionalizar o que sentia. Como castigo, não permitia-se sentir sem entender, então via-se constantemente emaranhada em suas confissões internas.
Aquele momento, o momento certo começou a ter sabor de passado, temperado de presente e retrogosto de futuro.
Um amor que tinha tudo para ser gostoso, porém era indigesto demais para ambos saborearem.
-Mau.. rício. Olha… sei lá. É sempre um molho de coisas…
< 5 anos atrás - hospital próximo a Vila >
- Sr. Mauro? Bom dia! Sou Joana, sua enfermeira.
Sr. Mauro sente como se tivesse sido vítima de um acidente. Logo ele que nunca foi muito fã de automóveis em geral, via-se impossibilitado de erguer um único dedo da mão sem precisar de ajuda ou apoio.
-Estou aqui com o Sr. não precisa me responder, só preciso saber que está me ouvindo. Consegue me dar algum sinal?
Sr. Mau faz todo esforço possível para virar o seu rosto em direção a Joana. Lembra como flashs do passado que estava em casa comendo uma deliciosa macarronada de Dona Ana quando tudo começou a acontecer. Até aquele momento não conseguia explicar o que estava sentindo, entendia que era grave pois estava na UTI mas não só por isso. O olhar daquela enfermeira carregava pena e pesar, diferente de quando vai se fazer uma coleta de sangue. Ele via o medo e cada um dos pontos de interrogação que pairavam sob os olhos daquela desconhecida.
-Obrigada! percebi o seu esforço para virar o rosto em minha direção até o fim do dia gostaria de ouvir um pouco da sua voz, para percebermos o seu estágio e a evolução.
Sr. Mau pisca os olhos com força como um sinal que não sabe se Joana será capaz de captar. Além de odiar conversas em geral, também não gostava de estar sozinho com pessoas desconhecidas. Sentia-se desamparado sem a companhia e novidades de onde Ana estaria.
-Certo, entendi a piscada. A propósito, ontem eu conheci sua esposa e sua filha. Sua esposa estava um pouco em choque. Também estava inconformada com a cor da parede da sala de espera, achei tão engraçado, ela queria sugerir outro tom no lugar daquele amarelo.
Como se estivesse em uma mesa de bar, Mau aproxima suas mãos em frente ao corpo. Um sinal de que poderia ouvir sobre aquela história aconchegante ao ponto de relaxar seu corpo, dando a entender que Ana era todo o diagnóstico que gostaria de saber naquele momento.
-O sr. movimentou as mãos, que legal. Olha, confesso que não gosto muito de chamar meus pacientes de Senhor. Acho tão genérico e, convenhamos, UTI não é pouca coisa, certo? Poucas vezes a gente vai pra UTI, então merecemos ser tratados com mais humanidade. Mas, o seu nome…. o seu nome é difícil de apelidar. Mau? Acho que não é um apelido muito gostoso de escutar..
É possível ver o peito de Mauro se erguendo com todos os fios e aparelhos sendo levantados juntos. Tentava rir, mas sentia um sofrimento tamanho que tornava algo tão simples impossível de conseguir tanta força.
Até para ser feliz, era preciso um grande esforço invisível para quem está vivendo no modo automático.
-Ótimo! Mau, vi que gostou da minha conversa fiada porém carinhosa, né? Eu tenho meus truques para observar os meus pacientes. Bom, saiba que o Sr. ainda não pode receber visitas, mas eu estarei aqui com frequência. Tem um lado bom: aproveite para descansar e desembuchar o que precisar comigo. Mas, tem um lado ruim: as paredes aqui também são amarelas e eu falo sem parar mesmo o Sr. não me respondendo… o que é estranho. MAAS, eu acho muito mais estranho termos um vocabulário IMENSO e não usarmos, certo? Eu já volto!
Ali, Mau percebia como Dona Ana talvez tenha se sentido a vida inteira. Casada com um homem de poucas palavras, era como se ela tivesse investido todo o seu vocabulário em uma caçamba imensa e que era esvaziada semanalmente. Afinal, o vocabulário só se renova conforme existe troca. Logo, todas as palavras de Ana entravam e saiam do seu ouvido e coração sem chance de serem renovadas. Mau, um homem tão enriquecido intelectualmente e financeiramente, se viu pela primeira vez vivendo a vida de maneira tão empobrecida.
Joana entra com uma porção de bandejas empilhadas. Sr. Mauro encara a realidade de que toda palavra exige uma força, uma energia física e emocional para nascer. Percebe que por toda a vida diminuiu essa força ou nem fez questão de exercitá-la, porém agora ainda não era tarde demais. Ele ainda poderia dizer, tentar dizer, as palavras que nunca foram ditas.
-Pode me chamar de Mau.
Joana vira o corpo com certo espanto em direção ao paciente. Não esperava ouvir sua voz tão cedo, sequer entendeu de onde tanta força foi tirada para que cada palavra fosse pronunciada.
-Oi Mau! É bom ouvir você falando, tome o tempo que precisar para recuperar o fôlego e, se quiser me conte algo sobre você…. hum…. já sei! quero saber a sua cor preferida. Acho que já sei a da sua mulher.
-Verde. Capim Cidreira.
-Que interessante! sempre quando venho para cá, bom, eu gosto de caminhar parece que ajuda a arejar os meus pensamentos entre um plantão e outro, então no caminho eu sempre passo em frente uma vilinha com casas simpáticas que tem esse nome.
-É minha Vila. Nossa Vila… Cidreira.
A medida que as palavras saem, ele se dá conta que não sabe a de Ana.
-Que coincidência imensa. Bom, tem que acredite em acaso, né? eu não sei o que você acredita. Eu gosto de imaginar que tem algo ou alguém regendo nossos dias. Aposto que esse mesmo “algo” ou “acaso”, que uniu você e sua adorável esposa…
Um silêncio acontece e permanece. Joana percebe nos olhos baixos de Mau uma equação sendo resolvida ao vivo na sua frente. Não sabia em que ferida ou comoção tinha causado, mas decidiu alimentar aquele silêncio. Joana virou-se para os sacos de soro, verificando se todos estavam pingando no mesmo ritmo. Checou o oxigênio para que nada pudesse obstruir a passagem do ar. Esticou os lençóis da cama e dobrou a manta que ficava posicionada nos pés do paciente quando foi surpreendida pela verdade:
-O acaso é alguém com coragem e curiosidade suficiente para realizar aquilo que tanto fantasiamos. Para conhecer Ana, precisei do meu melhor amigo. Para perder Ana, precisei de um novo vocabulário… nós não nos entendíamos mais.
As palavras de Mau tocaram Joana. Era como se ela tivesse tido um AVC bem na frente dele. A dor, o pesar, a interpretação, a verdade… a verdade carregava significado demais. Tanto que para evitá-la, era preciso de muitos argumentos para nos convencermos que a verdade não importava tanto assim.
-Eu a amo, por causa do acaso, mas também por não saber viver de outra maneira. Agora já é tarde demais.
-Sr. Mau… sabe, às vezes me colocam na posição de como se eu soubesse o tempo de cada um que entra por essa porta. Tento constantemente me lembrar de que eu posso estudar quanto for, eu não sei quanto tempo eu tenho. Eu não sei quanto tempo o sr. tem. Mas, enquanto você está aqui, ainda há vida. Tá bom? E conte comigo para o que precisar.
Sr. Mauro pela primeira vez sente que precisava deixar as lágrimas rolarem, fluírem como se fosse impossível de contê-las. Não sente seus olhos úmidos. Não sente seu rosto sem inundado pela tristeza de ter engolido tantas palavras sentidas dentro de si. Mas, vê diante dos seus olhos, uma chance.
-Joana, você me faria um favor?
-Claro!
-Não é tão simples, mas é importante…
-Me conte o que você precisa e farei o possível para ajudar.
-Preciso que você me ajude a colocar um ponto final. Vamos lá. Nossa história começou há muitos anos atrás….
< Atualmente - quarto de hospital do Maurinho >
Depois de quase um mês no mesmo quarto, Maurinho sente-se entediado. Já não aguenta mais o mesmo café da manhã, quer voltar para sua rotina, os barulhos da casa e até mesmo para os brinquedos espalhados da filha. Nada como dias que nos fazem perceber como a vida é frágil, fugaz e incontrolável. Com o rosto ralado e ainda um pouco desconfigurado, já era hora de parar de correr, era hora de caminhar sem tanta pressa, ou melhor, com mais consciência da sua própria velocidade.
-Bom dia! Paciente… Mau…rinho.
-Você lembrou!
-Opa! minha memória é meu maior troféu. Deus olhou pra mim e disse: essa aí vai lembrar de absolutamente tudo.
-Tudo? Tudo mesmo?
-Ah! só aquilo que importa…
Marta entra abrindo a porta com força e entusiasmo. Nas mãos, ela segura 3 balões em formato de moto.
-Pelo amor de deus que susto!
A enfermeira dá um pulo pra trás com a aparição surpresa.
-Desculpe! Não foi a intenção. Só achei digno, no dia da alta do meu irmão, comemorar a altura dessa criança empolgada que ele é - risos
-Até que enfim você chegou, Marta!
-Você não deve ver a hora de ir pra casa, né? diz a enfermeira.
-Pois é. “Qual casa” seria a melhor pergunta..
-Calma, mano. Tudo vai se resolver
-Marta, eu vou me mudar. Vou me divorciar de Carla e…
-Você deu algum remédio a mais pra ele? veja, está delirando o menino…
A enfermeira dá risada da conversa, mas não perde a chance de expressar sua opinião
-Desculpe senhora, eu aprendi que pontos finais também são importantes.
-Eu sei, mas pra quê tanta pressa? sabe…
-Marta, para! estou fazendo um grande esforço para falar o que sinto, você deveria escutar sem me desautorizar…
Marta sabe que Maurinho tem razão. Foi como se a vida toda tivesse a convicção de que sempre tem as palavras certas, enquanto ele, as incompletas. Era como se a todo momento precisasse revisar o que Maurinho tinha dito. Era cansativo para Marta e desinteressante para Maurinho que ocupava o lugar de invalidez daquilo que tentava nomear do que pensava e sentia. Mas nenhum dos dois percebia o quanto essa dinâmica os impedia de seguir rumo a uma vida possivelmente mais honesta.
-Sr. Maurinho - a enfermeira ainda pronúncia segurando a risada ao chamá-lo por esse apelido tão íntimo - está na hora de ir pra casa! Acredito que o Sr. não aguenta mais olhar para essa paredes… pronto?
Apesar de estar há pelo menos 1 mês no mesmo quarto, só naquele instante Maurinho percebeu um grande detalhe que, em sua família, nunca passaria despercebido:
- Olha só! A cor da parede… Não acredito que deve ser verde capim cidreira.
-Ah pronto! Marta revira os olhos cansada de lidar com todo drama e aprofundamento interno de sentimentos do irmão, apesar de ter cobrado e pedido isso durante a sua vida inteira.
-Pois é, Sr. essa parede tem uma história curiosa. A ex-esposa de um paciente que esteve aqui quem sugeriu… antes elas eram amarelas e….
-Espera! Marta interrompe a enfermeira mas é interrompida por Maurinho antes…
-Olha só! Eu te conheço! Você, aqui?…. Jô?
< Entrada da Vila - meses atrás >
-Boa noite! Eu vou na casa 03, do Ju e do Gui.
-Boa noite! o seu nome é?
-Joana
-Certo, vou ligar para os moradores, ok?
-Claro! Está um pouco escuro aqui, se importa de eu entrar e aguardar do lado de dentro?
-Claro, senhora. A não ser que esteja planejando roubar um velho como eu… se for isso, preciso te pedir que retorne amanhã, certo? preciso me preparar…
-Não não, rs. Quero apenas evitar que me roubem, nunca se sabe, está um pouco escuro…
-Certo, entre. Aguarde aqui ao lado que logo te sinalizo, ok?
Joana aguarda do lado de dentro da Vila com esperança de que seu plano aconteça conforme ela imaginou: deixar o Sr. Dorival se distrair, enquanto ela caminha devagar pela Vila procurando a única casa de tijolos a vista. Parece uma criança quando entra em um ambiente novo observando cada cantinho, todos os detalhes antigos e muito bem conservados, as casas esverdeadas… Joana se pega sorrindo sozinha a medida que caminha com passos curtos “Eu demorei, mas eu vim… ainda está em tempo, meu amigo”.
-Boa noite?
-Ai que susto! desculpe, eu estava falando sozinha…
-Você é nova por aqui? Olha só! Eu sou Mauro… todos me chamam de Maurinho. Nunca te vi por aqui e nós conhecemos tudo e todos aqui, hehe
Joana sente-se constrangida conversando com aquele estranho tão familiar. Tenta disfarçar suas verdadeiras intenções quando percebe que teria que lidar com esse rapaz ou com o porteiro
-Eu sou a Joa… Jô! Eu… trabalho para o Ju e o Gui
-Entendi! Eu não falo tanto com eles, mas sei que são gente boníssima. Gosto deles. Um casal bonito, né?
-Eles são! Como meu turno será longo, aproveitei para tomar um ar aqui fora e logo mais vou retornar lá, noite intensa!
-Ufa hein! Olha só! Logo em frente daquela casa de tijolinhos, aliás, ali mora a minha irmã, ela colocou um banquinho para sentar. Fica a dica!
-Maurinho, né? Muito obrigada!
-Que isso, boa noite Jô.
Joana acelera o passo, senta-se no banco e aguarda até Maurinho perdê-la de vista.
Estou sozinha sentada em um banco de uma Vila chamada Cidreira, com casas esverdeadas, em frente a uma casa de tijolinhos cuja dona eu não conheço, mas vou precisar entrar dentro da casa dela. “Olha só!” como diria seu filho, Sr. Mauro, que noite aleatoriamente sem sentido. Depois vou na casa de completos desconhecidos, sorrir a noite toda fazendo social, pensando que depois preciso entrar na casa da Sra. sua ex-esposa… que que eu tô fazendo da minha vida? e vai dar certo? claro que vai dar certo…
-Boa noite Maurinho! Licença, vou liberar a mulher que estava…
-Ué! não tem ninguém aqui Sr. Dorival
-E você não viu não?
-Dorival, se tem uma coisa que eu não perco de vista é mulher… ha-ha-ha. Conhecendo o Sr já deve ter liberado ela e não se lembra
-Ela ia na casa do Gui e do Ju…. eu já liberei?
-A Jô? sim, liberou. Agora relaxa, tá? o Sr tá muito velho pra se estressar desse jeito e não ver ou se esquecer das coisas… Boa noite!
-Meu filho, meu problema é que eu vejo e lembro das coisas até demais…
< continua >


