#07- Marta
tudo sempre pode mudar
< anos e anos atrás >
Na noite em que Maurício encontrou-se com Ana para dizer adeus, Tia Mariana conduz Maurinho para o seu quarto, na qual dividia com a sua irmã Marta.
Ainda eram dois. Na verdade, pensavam que sempre seria assim. Davam-se tão bem que não viam espaço para mais um colchãozinho no quarto em que já faziam milagre para caber.
-Tia Mari, mamãe está bem?
Tia Mari sente nos olhos do garoto a preocupação sincera com D. Ana, afinal era quase possível tocar no coração dela de tão acelerado e saltitante que estava.
-Claro, Maurinho. Sua mamãe está bem. Está apenas cansada e um pouco confusa.
-Confusa? o que é isso?
-Sabe quando você gosta da moto vermelha e azul?
-Sei
-Então, aí te pedem para escolher apenas uma, com qual você fica?
-COM AS DUAS!
-Foi rápido na decisão! mas nem sempre é possível ter tudo que se quer e que se gosta. Às vezes é preciso abrir mão.
- Olha só tia, já que a mamãe gosta de moto, eu posso emprestar minha moto para a mamãe amanhã, assim ela vai ver que tudo vai ficar bem.
-É muita gentileza sua, querido. Isso fica para amanhã então, tá? Hoje, vamos deixar sua mamãe descansar. Entre com cuidado para não acordar Marta, eu estarei ali fora caso precise de mim. Boa noite, Maurinho!
-Boa noite Tia Mari!
Tia Mari encosta a porta do quarto das crianças. Sente um frio na barriga, um suor frio escorrendo pelas suas costas. Apesar de todo conflito amoroso da irmã ser contra sua fé e os seus princípios, se compadece pois admira a coragem de Ana por se permitir sentir, apesar de não tomar nenhuma atitude sobre isso.
No quarto das crianças, Marta esperava ansiosa pelo retorno de Maurinho para a cama. Queria saber o que aconteceu, o que ouviu e o que fez toda frequência da casa mudar naquela noite. Vê o irmão se esticando na cama e pergunta:
-Ei, Maurinho!
-Credo, Marta! pensei que estivesse dormindo, que susto!
-Não! estava te esperando voltar. O que aconteceu? Por que você saiu e cadê a mamãe?
-Sei lá, eu acordei sentindo uma coisa. Uma coisa forte no peito, não sei explicar
-Você já sentiu isso antes?
-Às vezes.. quando a mamãe me abraça ou estamos brincando e nos divertimos muito juntos.
-Então é uma coisa boa?
-Sim sim sim, é boa! Mas muito forte. Eu senti isso e fui até a sala…
-Mamãe estava lá?
-Deixa eu contar, Marta?
Marta era extremamente curiosa quando se tratava de algo com a mãe. Queria saber as cores, sensações, barulhos. Queria viver a vida da mãe o mais perto possível que fosse para poder reproduzir um pouquinho na sua própria vida. Ela aguardava ansiosa pelo relato de Maurinho enquanto encaracolava uma mecha dos seus cabelos com o dedo.
- Tá, conta! mas vai logo
- Eu fui até a sala e a mamãe não estava lá. Então tentei abrir o quarto. Ela e o papai estavam lá. Juntos. Eu ouvi ele dizer algo como “ eu por você, você por mim “ , sei lá. Ai… BUM! A mamãe abriu a porta e se abaixou pra falar comigo.
-Só isso?
-Sim! Tia Mari estava ali também, acho que é aquela noite em que elas se encontram para conversarem… deve ser isso.
-Entendi… por um instante eu fiquei com medo de alguma coisa acontecer.
-O que acontecer?
-Sei lá… algo acontecer. Acontecer e mudar tudo, pra sempre.
-Mudar o que?
-A gente? A nossa vida?
-Isso num vai acontecer, Marta.
-Tudo sempre pode mudar. Como você tem tanta certeza? você é menor que eu.
-Porque eu tenho, oras! Se depender de mim nada vai mudar.
-De mim também!
-Então pronto, está tudo prometível
-Não é assim que fala, Maurinho hahah
-E como é, sabichona?
Marta mantém-se em silêncio. Gostava de ser a mais velha que descobria o mundo e tinha certezas mais definidas do que o irmão. Mas, nessa hora, também não sabia bem como conjugar o verbo, então rebateu com o que, naquela noite, alcançou o seu coração:
-Eu por você, você por mim.
-Isso, Marta. Essa é a nossa promessa. Você sempre sabe como me ajudar.
Na casa da Tia Mariana, o silêncio habitava cada vão do concreto. Ana ouvia Marta desaguando na ligação de celular e Mari encarava a chaleira de água que já tinha fervido a muito tempo atrás. Ambas pensavam em tudo que sentiam. Em tudo que não tinha sido dito. Naquilo que deveriam ter feito.
O segredo que as unia, hoje cobrava um custo alto. Tão alto que questionavam-se secretamente até onde elas iriam sustentá-lo. Ana por vezes sonhara que a irmã jogava esterco no ventilador que era direcionado para o seu rosto. Mari sonhara com o dia que Ana finalmente faria algo por si mesma, ao mesmo uma vez na vida.
Nenhum dos sonhos se realizava. Nenhuma das duas queria correr o risco de romper o pacto que há tantos anos as uniu.
Ana finalmente desliga o telefone e sentasse na mesa. Seu corpo está um chumbo e, por isso, derrete-se na cadeira e espalha-se sobre a mesa. É possível tocar as partículas mais tristes e preocupadas de Ana. É possível sentir toda decepção consigo mesma.
-Ana, Aninha…
Mari aproxima-se da irmã. Apesar de sempre ter um conselho pronto entre os dentes, dessa vez, não sabe o que dizer. Nenhuma palavra a alcança. Nenhuma frase se formula. Nenhum verbo se apresenta. Rendida ao amor que sente por Ana, ela decide improvisar e a abraça. Derrama sobre Ana sua compaixão. Era apenas isso que Ana precisou a vida inteira. Mas, seria o bastante? Mari começa a se questionar se isso era o melhor que poderia fazer. Porém, inúmeras vezes na vida, ela já tinha percebido que entra aquilo que precisa ser feito e aquilo que irá resolver, existe um grande abismo que apelidamos erroneamente de amor.
Naquele dia, como todos os anos, Mari ofereceu seu amor.
Engoliu seco o desejo de compreender as razões pelas quais a irmã ainda mantinha um segredo tão bem guardado. Como ela ainda tolerava atuar dentro da própria vida. Será que era isso que a movia? Desprender a energia do seu sonho de ser atriz encenando suas fantasias? Ela merece mais. Ana merece mais. Ana merece mais.
-Ana merece mais.
Mari, com a voz trêmula, diz no ouvido da sua irmã que com esforço a responde
-De que Ana estamos falando?
-Aninha… você sempre atenderá por esse nome. Mas, talvez esteja na hora de escolher se referir a você, rende-se as seus sonhos, desatar alguns segredos…
Foi o mais perto que Mari, respeitosamente, conseguiu chegar no terreno tão cercado e protegido da irmã.
-Os tempos são tão confusos, Mari.
-Está na hora de fazer as pazes com esses tempos, mana. Afinal, nossa mãe não estava tão certa…
-Como assim?
-Nós não somos a melhor coisa que ela poderia nos dar. Nós nos fizemos assim. Está na hora de escolher pelo o que você quer se dar agora.
< silêncio >
-Eu sempre pergunto como nos enrolamos tanto… mas, a verdade é que só quero ouvir a história de novo. De novo e de novo. Parece que ao contá-la ou ouvi-la, eu revivo cada segundo.
-Eu sei, Ana. Por isso, não me importo de ouvir pela zilhonésima vez do dia em que encontrei você, Maurício, o porta retrato… Muito menos quando você tentou se livrar dele e o colocou à venda no antiquário!!!! Que ideia foi essa?
Ana começa a se mover finalmente da mesa. Ergue o tronco, sente o seu peito percorrer por toda a mesa onde estava o seu chá. Leva as mãos aos olhos para limpar suas lágrimas e ri, timidamente. Porém, com fervor. Dessa história, ela se orgulhava.
-Eu queria afastar de mim, oras. Não podia mais ficar com aquilo na minha casa. Mas também não poderia viver e perder de vista.
Mari respira fundo. Uma respiração tão funda que demora alguns minutos para se recuperar, porém devolve o fôlego para o ambiente.
-Ana, mudando de assunto… o que Marta te disse na ligação?
Marta entra em casa. Como de costume, coloca a bolsa no gancho posicionado no hall de entrada. Passa álcool em gel nas mãos, borrifa um aroma de capim limão em casa, tira os sapatos. Liga para Angélica e ela não atende. Não sei nem porque insisto em ligar, pensa. Sem entender os motivos da irmã, ela lembra-se do pedido de Maurinho de pedir para que Gé o ligasse para conversar.
“olha só, posso te ligar? Essa situação que acabei de passar me fez
refletir um pouco. Queria esclarecer algumas coisas com você…”
Marta relê as palavras que o irmão a pede para dizer para Gé, como se ao ler pela trigésima vez, fosse possível descobrir o que o irmão quis dizer. Tenta-se lembrar da última vez que Maurinho fez um pedido como esse, mas não se recordava. Eram cúmplices, sempre se mantiveram atualizados um do outro e pelo outro. Mas, pela primeira vez, Maurinho tinha encaixotado algo sozinho. Pela primeira vez, Marta não sabia o que se passava na cabeça, no coração e nos desejos dele. Pela primeira vez, deu-se conta de que, na verdade, nunca soube. Mas era confortável demais acreditar que tinha esse poder… Até que a realidade chega pesada demais para ela.
Marta desliza pela parede e liga para Ana.
-Mãe… Maurinho não quer me liberar para entrar no hospital.
O que eu fiz, mãe? O que eu fiz? Eu estive com ele lá, passei toda a manhã, tarde e noite, pois sei como a Gé odeia hospital e eu QUERIA estar ao lado dele!! Mãe, eu pensei que fosse perdê-lo para sempre!! Eu não posso deixá-lo ir agora, ainda temos tanta coisa! Mas, como ele reage dessa forma? Me pedindo para vir para casa descansar.. COMO EU VOU DESCANSAR COM MEU IRMÃO INTERNADO E TODO DESTROÇADO? COMO ELE ACHA QUE EU VOU FICAR QUANDO ELE FINALMENTE PODE FALAR, ELE PEDE PARA LIGAR PARA A GÉ? A GÉ? QUE NÃO TENTOU EM NENHUM MOMENTO IR ATÉ LÁ. COMO MÃE? Era eu por ele, ele por mim…. sabe? Mas ele me diz que precisa esclarecer coisas com ela… o que ele pode ter a dizer que eu não sei? que eu não possa saber para, inclusive, ajudá-lo? Afinal, é o que eu fiz a vida toda mãe… eu não sei viver de outra forma… não sei… Agora ele me proibiu de ir até lá e não me atende mais…..
Pela primeira vez, Marta desmorona. Chora lágrimas de desamparo. Perde o ar entre uma palavra e outra. Não escuta. Liga para Ana a fim de tirar de si essa indignação que ainda não tem nome. Não tem para onde ir, apenas para dentro do peito.
Só cabe dentro do peito.
Marta emite sons que não fazem sentido. O choro cessa a medida que ela desliza o telefone do seu ouvido e já não importa mais quem está na outra linha. O tempo passa diferente. O amor que ela cresceu cultivando com todas as forças, de repente, ganha um novo limite. Um limite que a faz rever toda a sua história.
Limite que não estava no contrato selado naquela noite, entre ela e Maurinho.
“Tudo sempre pode mudar”, Marta se lembra de quando disse para Maurinho e ele insistiu que nada mudaria.
Mas a realidade batia na porta dizendo: a vida é da ordem da mudança. É recontando a nossa história que aprenderemos a viver de forma mais honesta com nós mesmos.
<26 anos atrás>
-Oi Sr. Dorival!
-Olá Sr. Mau! Como você está? Como estão as crianças?
-Estamos todos bem. Obrigado. Cheguei com um pedido encaminhado…
-Opa! Gosto de brincar de telefone sem fio. É coisa boa?
-Como toda peça antiga, tem sua beleza. Mas, agora Ana acha que não está ornando na nossa casa.
Sr. Mauro entrega o porta retrato para Dorival, o vigilante da vila. Dorival estende as mãos e recebe o objeto. Dourado, fosco e levemente empoeirado.
-Tem espaço para deixar por aqui, Dorival?
-Claro! Peças pequenas mas simbólicas desse jeito, vendem rapidinho…
Sr. Mau o interrompe no mesmo instante
-Não, não, Dorival. Essa peça não precisa ser vendida. Só peço que fique com ele por aqui… tipo um guardião, pode ser?
-Não faz sentido, mas é você quem manda meu querido! Vou manter esse porta-retrato perto de mim. Fique tranquilo.
-Agradeço a sua dedicação por todos esses anos. Até logo.
Sr. Dorival encara o objeto.
-Essa vila fica cada vez mais esquisita...


